
“Ao passado vinte anos de vida”.
Há algum tempo perdi o medo das coisas mais banais, aprendi também a sustentar os passos e a assumir os erros que são meus. Ainda que o coração feneça em meio a um deserto, a força que me sustenta não morrerá jamais, pois é a mesma força que traz sentido a minha existência e move cada passo dado no caminho de poeiras e escombros que um dia trouxe perdas, sofrimentos, e com ele, um desespero inútil que pôs em risco a vida, mas que os dias seguintes sepultaram trazendo de volta a esperança de extinguir a dor.
Como uma sombra no deserto vou vagando sob o espectro da solidão. A solidão existe estando sob a companhia de um ente ou de um fantasma. A solidão não se explica: vive-se ou tenta enganar. Na verdade, Norman Brown um dia disse: “Toda a história do homem é um esforço para destruir a sua própria solidão”. Mas eu afirmo sem estupor: por mais que se esforce o homem não consegue reduzi-la a nada. A natureza humana está irremediavelmente presa a solidão.
O horror estampado na mente prenuncia a dor de uma vida inexorável, a própria existência permeada por dramas inadiáveis. A vida se torna mais sensível diante dos fracassos e a força deste explica porque uma alegria tem sempre um gosto efêmero, fugaz até libertar-se no vazio.
Caminho em passos lentos, porém retos, ciente de que amanhã poderei descobrir bem mais do que hoje sei. Apesar dos percalços, a vida vale à pena quando a liberdade não se apequena e as escolhas são sempre feitas. Sem as escolhas nunca saberíamos o limite entre um erro ou um acerto. A crença ou o desejo, a verdade ou a mentira? Será isso tudo o que há?
Mesmo que caia rente ao chão seco, no recôndito da alma unirei forças para me soerguer do cadafalso da ruína e fazer uma nova história sem perder a emoção da vida. A minha sombra luta no deserto, mas vive entre as ruínas e os corpos de um lugar abafado pela ousadia de um sonho outrora perdido. Os anos sucedem uns aos outros, mas aquele lugar continua o mesmo e reconheço que por conta dele, minha sombra vive um permanente processo de mutação e entre suor e lagrimas vou construindo um novo sentido para a vida: um sentido que ainda hei de descobrir sem sombra nem deserto.
Por Carlos Henrique Carvalho
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Sombra no deserto
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segunda-feira, 29 de junho de 2009
Por que se faz o amor?

Por que o amor se faz? Ao retornar de mais uma viagem, eis que me reencontro em um dilema entre o tempo e a saudade, o desejo e a insanidade, afinidades e contrastes. Ora, mas de que estarei falando, afinal? Não sou o louco nem o são de uma história de amor escrita a custa de suor e lágrimas. Sofro e sorrio como qualquer um de vós. Mas viver? Ah!! Não sei quem vive entre a janela da saudade e a porteira de um tempo esquecido pela memória. Somente aquele que pulsa no peito faz crescer o desejo de te possuir sempre
É preciso gravar teu nome ao lado do meu para que todo o mundo sinta e perceba o quanto você é marca indômita da minha existência. Mas eu não preciso dizer mais do que venho sempre buscando em palavras e atos. Amor, em linhas e contornos das nossas vidas vamos construindo uma história nunca imaginada pelos poetas e se todos os instantes passam quando estou sem ti, o tempo deixa de ser crucial quando estamos nos amando.
Por que se faz o amor? Não sei. O amor é em sua auréa, indefinível, não se mede e nem se acanha. É como o encontro da lua e do sol, meu amor e eu; algo imensurável que se abocanha como faz um apaixonado faminto pela sua paixão, sedento em saciar um desejo guardado a sete chaves. Não amo porque sou louco, mas sou louco por te amar sempre. Conheço a dor que distância nos traz a cada instante que me afasto de você, mas antes de ir, nunca esqueço de deixar contigo meu coração.
Por Carlos Henrique Carvalho
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quinta-feira, 12 de junho de 2008
Palavras para um amor

Minha sempre amada,
Um dia sem você é inteiramente insuportável de viver. Lembra daquele poema que fala de um nicho da saudade eterna e das longas linhas que dediquei ao nosso amor? Das palavras, dos gestos de carinhos e das ações que faziam nossa história acontecer?
Lembrei de todos os momentos que falaste ao acaso, dos suspiros sob a noite sem estrelas, das canções de amor que escutávamos lado a lado e descobri que a cada caminho que a história traça, nenhuma chama se apaga, mesmo na aporia. Assim acontece com esse amor. Mas hoje o silêncio (indiferença, indecisão) que teima em dilacerar o peito é apenas o retrato de uma saudade guardada às sete chaves e que agora publicamente declaro, sem medo de dizer sobre aquilo que pulsa no peito é mais forte que o desejo de tê-la junto a mim. É a paixão rediviva que faz o desejo aflorar e ao mesmo tempo relembrar a doçura do teu olhar e aquela linda voz que ressoava no aprumo de um lirismo apaixonado.
Por isso não me enganei ao dizer que sofro ao viver sem você, como o mundo sente a falta do brilho intenso dos corpos celestes. Sob os auspícios do dia e da noite vou construindo um espaço cativo para reviver a tua presença. Porque os momentos se vão, mas as lembranças nos fazem fugir da dor, mesmo que nesse instante fatídico, a distância em sua tez crua, essa mesma que separa as nossas almas, tenha mais sentido que qualquer outra coisa.
Do teu eterno amado-amante.
Por Carlos Henrique Carvalho
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
A estrada da vida

Eu vi uma estrada bonita, grande, longa e, sobretudo, brilhante. Andei por esta estrada, no decorrer de minhas andanças, vi uma luz. Era uma luz muito forte, brilhava intensamente e jamais se apagava. Tentei fechar os olhos para constatar se era um sonho, mas não era. Então, caminhei lentamente procurando descobrir novas coisas e sem mais nem menos, essa luz foi crescendo, envolvendo-me completamente até me levar a uma outra estrada.
Esta estrada brilhava mais ainda e o seu brilho afogava todas as mágoas que um dia tive. Andei muito, até que bem no meio do caminho encontrei uma pedra. Deus! “Tinha uma pedra no meio do caminho”. Abaixei-me, peguei esta pedra e neste instante passei a lembrar de tudo o que havia feito na vida. Logo então, guardei a pedra, certo de que tinha achado o objeto primordial de minha vida. Continuei caminhando tranquilamente, tentando descobrir novas artes, novas vidas, enfim, novas coisas.
O tempo passava e eu seguia sempre em frente diante da grande estrada, com o seu brilho estonteante e expressivo. Caminhei com a certeza de que iria descobrir algo de bom, cheguei a certa parte da estrada que quase me cegou os olhos com a sua claridade assustadora. Vi, pensei, achei, mas não agi. Deixei-me dominar pela exuberante claridade e cai pesadamente, desmaiando em seguida. Ao acordar vi-me perdido. A luz que antes brilhava agora estava apagada. Desesperei-me, pois não sabia o que fazer, mesmo assim, continuei caminhando em frente na certeza de que tudo iria brilhar novamente. A estrada que antes era bonita, grande, longa e brilhante, tinha se tornado feia, pequena e escura, embora ainda fosse longa. Andei muito até que percebi algo por demais estranho, como se estivesse passando-me um aviso e logo me preocupei com este aviso, talvez fosse o sinal de que aquela triste situação iria voltar ao normal. Caminhei lentamente por aquela triste estrada.
No decorrer desta estrada encontrei-me com outro objeto bem maior, mas brilhante por sinal. Então, descobri que havia chegado ao meu destino. Toquei neste objeto símil à pedra e de repente, toda a luz voltou. Alegre e emocionado, fiquei assim por haver cumprido minha sina. Continuei caminhando pela estrada, antes clara depois escura, mas que agora estava clara para sempre. E com a certeza de ter cumprido bem o meu destino, continuei a caminhar em frente com a luz que me guiava, procurando a partir daí um outro sentido para a vida, o caminho de Deus.
Carlos Henrique Carvalho
PS: Conto escrito em novembro de 1995 e publicado no Jornal O Povo em 2 de Janeiro de 2005.
PS: A imagem tem como título "France" de Elliott Erwitt.
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
A caminho da escola

Um dia ao caminhar em direção a escola, deparei-me com uma cena estranha e ao mesmo tempo tão real na vida de muitos homens que pairam sobre a terra: vi um sujeito jogado ao chão sujo e ao seu lado uma lata de lixo. Até ai nada demais diante da situação de um povo que sobrevive num país terceiro-mundista e que todo dia sonha em alcançar status. O fato, absurdo por sinal, é que o tal sujeito comia o lixo com tamanha voracidade que chegava a assustar.
Este acontecimento dramático, por todo o restante do caminho tornou-se dono de minha consciência. Como entender uma situação pela qual eu nunca passei? Simplesmente a voz pode se erguer em discursos e interpretações múltiplas, mas nenhuma resposta explica aquilo que eu vi. Tudo aquilo que eu disser é um vácuo diante do que eu senti tão próximo e doloroso.
Meu caminho em direção a escola perdeu seu rumo diante da constatação de que a realidade é sofrimento. Durante todo o trajeto vi e vivi dores, desesperos, misérias, ainda que indiretamente eu estivesse sendo agredido. Mas quem imagina que ao chegar a escola tudo ficou para trás, engana-se; não pude mais esquecer o que eu havia visto há pouco. E tudo isto me trouxe a certeza do quão distante estamos do sonhado bem-estar, já que a miséria convive tête-à-tête com a nossa parca condição de vida marcada por uma luta estóica e quase sempre perdida.
A verdade é que a memória pôs o caminho no passado. Agora estou entrando na sala de aula e o que vejo diante de mim não é menos cruel do que eu vira no caminho. Os rostos dos jovens alunos muito se assemelham ao do sujeito que comia o lixo. Aliás, vejo um pouco daquele sujeito em cada um de nós: impregnado como corpo e alma. A miséria que estava no caminho, também é visível na escola. O estranho é que demorei pra perceber isto. Mas mesmo assim, não desisto por nada. Ao final de tudo, minha voz se erguerá contra aqueles ousaram sujar o meu caminho.
Carlos Henrique Carvalho
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